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Aparelho inédito mostra se óculos de sol podem ser usados para dirigir


Você sabia que seus óculos de sol podem ser impróprios para dirigir? Na hora de comprar o acessório, muita gente pensa apenas na questão estética ou então na proteção contra raios ultravioleta. Mas o que pouca gente sabe é que as lentes dos óculos solares também podem atrapalhar a visão do motorista, alterando as cores do semáforo ou impedindo a entrada de luz suficiente nos olhos do condutor. Para testar se os mais diversos modelos de óculos de sol são adequados para quem dirige veículos, pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP criaram um aparelho que exibe a resposta em poucos segundos.
O projeto está descrito na dissertação de mestrado do pesquisador Artur Loureiro. O protótipo, feito de MDF, pesa aproximadamente 1,5 quilo (Kg) e o usuário interage com o dispositivo por meio de caixas de som e de uma tela sensível ao toque. Dentro do aparelho, a luz branca de um LED é apontada na direção de uma placa eletrônica composta de um sensor que faz diferentes medições. O teste com os óculos de sol é simples e bastante intuitivo: basta abrir a tampa superior do equipamento e posicionar as lentes do acessório entre o LED e a placa. Depois, é só aguardar alguns segundos (veja demonstração no vídeo acima).

“Nós queremos chamar a atenção do público para o assunto e instruir a população. Quando as pessoas vão comprar óculos de sol, nem perguntam se o acessório é próprio para dirigir, pois não sabem que essa possibilidade existe. O tema não é difundido.”

Para responder se os óculos estão apropriados para dirigir, o sensor do aparelho mede a chamada transmitância luminosa, que nada mais é do que a quantidade de luz visível que penetra pelas lentes do acessório e chega aos olhos do motorista. Por exemplo: se as lentes de um par de óculos possuem uma transmitância luminosa de 50%, quer dizer que apenas metade da luz do ambiente está atravessando as lentes e chegando ao condutor. Uma lente própria para direção deve deixar passar mais do que 8% de luz.

Além do teste de luz visível, o sensor também mede, especificamente, o quanto as luzes vermelha, amarela e verde, que compõem um semáforo, estão sendo diminuídas para a pessoa que está usando óculos de sol no trânsito. “O motorista pode deixar de enxergar alguma das luzes do semáforo dependendo do quanto forem reduzidas”, afirma Loureiro, que testou as lentes de 128 óculos com marcas distintas.Aparelho mostra em poucos segundos se óculos solares estão adequados para o motorista no trânsito – Foto: Artur Loureiro

Caso as cores do semáforo sofram uma diminuição de intensidade acima do permitido, os óculos também não serão próprios para direção. O número que traz essa resposta leva o nome de quociente de atenuação visual de luz de trânsito (Q). O valor final do quociente não pode ser inferior a 0,8 para luz de sinalização vermelha nem menor que 0,6 para luzes de sinalização amarela e verde. A partir da combinação de todas essas medidas e de alguns cálculos matemáticos, a avaliação dos óculos é revelada ao usuário.

A pesquisa foi apresentada no final do ano passado e financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A orientação do trabalho foi da professora Liliane Ventura, do Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação (SEL) da EESC.

“Nós queremos chamar a atenção do público para o assunto e instruir a população. Quando as pessoas vão comprar óculos de sol, nem perguntam se o acessório é próprio para dirigir, pois não sabem que essa possibilidade existe. O tema não é difundido”, explica Liliane, que coordena o Laboratório de Instrumentação Oftálmica (LIO) do SEL, onde o trabalho foi desenvolvido.
O que diz a norma?

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) classifica as lentes de óculos de sol em categorias que variam de 0 a 4, de acordo com quão escuras elas são. A primeira delas (0) corresponde às lentes mais claras, seguindo uma ordem crescente de escurecimento conforme aumenta a categoria. As lentes da categoria 0 são recomendadas para situações em que haja poucos raios solares, sem Sol aparente. Na categoria 1, as lentes são para cenários com Sol parcialmente visível.

Já na categoria 2, os óculos são para uso geral, oferecendo boa redução dos raios de sol, diferente da categoria 3, na qual os acessórios podem ser utilizados em ambientes com Sol forte, como praias. Por fim, a categoria 4 é composta pelas lentes mais escuras de todas, presentes em situações de incidência muito alta de Sol, como em ambientes com muito reflexo de água (passeios de barco) ou no alto de montanhas em cidades onde neva, e até em dunas de areia.
Tela exibe resultado de óculos considerados próprios para direção, à esquerda, e inadequado ao condutor, à direita – Foto: Artur Loureiro


Lentes excessivamente escuras, com transmitância luminosa igual ou inferior a 3%, não são classificadas em nenhuma categoria, uma vez que a norma foi feita para óculos de uso geral. Caso as lentes sejam da categoria 4 ou sem categoria, elas não serão adequadas para direção. “Pelo fato de as lentes solares serem fabricadas com filtro, o mesmo pode interferir na imagem transmitida. Sendo assim, as cores, a forma e a distância dos objetos podem ser alteradas equivocadamente. Quando pensamos em um motorista, o risco de acidentes pode aumentar”, afirma o oftalmologista Gustavo Paro.

A norma brasileira da ABNT requer que as lentes passem por testes de transmitância luminosa e sejam classificadas como adequadas ou não para dirigir. Entretanto, o público em geral não possui meios de testar seus próprios óculos de sol. Atualmente, a única maneira de saber se os acessórios são próprios para direção é por meio de um espectrofotômetro, equipamento utilizado para fins científicos e manuseado apenas por especialistas. Além de ser relativamente caro, grande e ter funcionamento complexo, o equipamento precisa de cerca de 40 minutos para testar se um único par de óculos está adequado para dirigir.
Insegurança na hora da compra

No Brasil não é exigido que os óculos possuam certificação para entrarem no mercado. Isso faz com que muitos produtos sejam vendidos sem passar por nenhum controle de qualidade. “Uma vez que não é exigida a certificação dos óculos de sol, o consumidor não é informado sobre os cuidados necessários no momento da compra”, diz Liliane.A professora Liliane Ventura e o pesquisador Artur Loureiro entraram com pedido de patente do aparelho desenvolvido – Foto: Arquivo Pessoal

Como o selo do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) ainda não é obrigatório no Brasil, procurar se o selo da Conformidade Europeia está presente nas mercadorias pode ajudar a comprar um produto mais confiável. “Infelizmente, vendem-se muitos óculos escuros sem qualquer selo de segurança, principalmente no comércio ilegal de ambulantes. O equipamento da USP é importante, pois teremos mais uma forma de informar a população, minimizando possíveis riscos”, conclui o doutor Paro.

Agora, a ideia dos pesquisadores é ampliar o conhecimento público sobre o tema, disponibilizando o aparelho em feiras, eventos e universidades. Empresas interessadas em produzir o equipamento também podem entrar em contato. “Nós estamos entrando com um pedido de patente, tanto do dispositivo quanto do método de medição, por meio da Agência USP de Inovação”, finaliza Loureiro.
Mais informações: (16) 3373-8740 ou e-mail comunica.sel@usp.br, com Henrique Fontes, na Assessoria de Comunicação do SEL

Henrique Fontes – Assessoria de Comunicação do Departamento de Engenharia Elétrica (SEL) e Computação da EESC

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